quinta-feira, 10 de maio de 2012

..


vento que é vento
não inventa
simplesmente venta
viver bem todo mundo quer
todo mundo tenta
feliz daquele que puder
olhar para trás
e rever as maravilhas
dos seus melhores momentos
em câmera lenta


ANTONIO TADEU WOJCIECHOWSKI

10 de maio


Mark Chapman,
o assassino de John Lennon,
nasceu num 10 de maio, como eu.

Fred Astaire,
o mais famoso dançarino americano,
nasceu num 10 de maio, como eu.

Ou me tiras pra dançar... ou te mato!
 
 
RAUL POUGH

...


Tenho sede de voz humana
Não desse zumbido patético
Nada me prende

Tenho fome de verbo
...
De tempo e de caos
Como Nau de cais

Parte de minha matéria viva não chora
Não sangra, não singra
Só tange

Impuseram a mim o dever de ter fé
De ter sede, de ter fome
Esqueceram que sou Homem

Desses desejos de ter felicidade
Transformei-me em farol
O tempo, meu faroleiro.
  
  
ADAN COSTA

sexta-feira, 4 de maio de 2012

aperto


No peito um aperto
de uma leve pedrada

é o efeito de uma carta de amor
e mais nada.

 
 
MARIA MELO

diariomariamelo.blogspot.com

"cidadão classe média"


"Cidadão Classe Média": você se omitiu e, um dia, a escola pública ficou ruim. Mas com um esforçozinho você colocou os filhos na escola particular. Você se omitiu e, um dia, a saúde pública ficou ruim. Mas com um esforçozinho você contratou um plano de saúde. Você se omitiu e, um dia, o transporte público ficou ruim. Mas com um esforçozinho você comprou um carro, depois outro. Você se omitiu e, um dia, a segurança pública ficou ruim. Mas com um esforçozinho você colocou grades e alarmes na casa e nos carros, foi morar em apartamentos, em condomínios fechados, contratou seguros e já está pensando num carro blindado. Você se omitiu e, um dia, a previdência pública ficou ruim. Mas, desesperado, com um esforçozinho você contratou uma previdência privada, na tentativa de fugir do pesadelo da velhice que não está longe. Você, "cidadão classe média", sempre pegou os problemas coletivos e os individualizou, dando a eles uma "solução particular". Você, "cidadão classe média", sempre "cagou e andou" para a floresta; você sempre se preocupou apenas com a "própria árvore". Você, "cidadão classe média", fez de cada grande problema coletivo uma batalha pessoal e nunca se importou com a guerra. Eu adoro quando você reclama, quando esperneia, quando chora, quando sofre! Acho que você, "cidadão classe média", tem mais é que se foder! E vê se pelo menos paga a mensalidade da escola, do plano de saúde, a prestação dos carros, o seguro e o ipva, a prestação do apartamento, o iptu, a taxa do condomínio, a mensalidade da previdência privada. Afinal, a gente sabe que você, "cidadão classe média", tem celular, ipod, mp3, dois cães de raça, etc, vai jantar fora, bebe vinho chileno (viva o pib do Chile!) e deixa na gaveta o boleto do condomínio e a fatura do cartão (vencidos, é claro!). Caso contrário, "cidadão classe média", você passará a ouvir, cada vez mais intensamente: ISTO NÃO LHE PERTENCE MAIS! E onde quer que eu esteja, estarei rindo muito (como rio com o programa da tevê) e pensando em você, "cidadão classe média", com todo o desprezo que você merece, pelo caráter egoísta da tua existência medíocre.
   
 
RAUL POUGH
    
(*) um texto de 2007.

gênios descontraídos...


  Steve Jobs / Bill Gates

quinta-feira, 3 de maio de 2012

curitiba


entre cachecóis e casacões
caminho pelo teu inverno
tro-pe-çan-do em pinhões
 
 
RAUL POUGH

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os Indomáveis



Excelente western de 2007, dirigido por James Mangold.
No cartaz não aparece o nome do ator Ben Foster, magnífico.
É um remake do filme de mesmo nome "3:10 To Yuma" (1957),
exibido no Brasil com o nome de "Galante e Sanguinário".

quinta-feira, 19 de abril de 2012

barbarola


Hoje suja
a vida ainda apetece
e um fio de luz imunda me tece
enlaça ao sol meus olhos fechados
vermelhos inchados
ainda boiando no pântano da noite.
O mundo visível. Um clarão terrível.
Já em fogo o dia me recebe
com um sopro indiferente.
Com sua horda bárbara de ruídos,
risos, rezas, rosnada realidade.
Penso em vencer a repugnância
e beijar fundo a sua boca aberta.
Penso em navegar pelas margens de sua luz
e outra vez vestir a malha do sono.
Penso em ti. Penso em mim.
Um fragmento de carne pulsante
em forma de coração
coberto de erva e treva.
Luz, alegria: agora tudo apenas
fosca memória tilintante.
Sem mais, comunico sem pesar
que o projeto Eudoro Augusto
não é viável neste momento.


 
EUDORO AUGUSTO

quarta-feira, 4 de abril de 2012

amor


Na véspera de ti
eu era pouca
               e sem
sintaxe
eu era um quase
          uma parte
sem outra
            um hiato
de mim.

No agora de ti
         aconteço
tecida em ponto
             cheio
um texto
com entrelinhas
         e recheio:

um precioso corpo
um bastante sim.

  
  
MARIA ESTHER MACIEL

caos


                                  Há um momento na vida
                                  de terror definitivo,
                                  de fracasso tremendo,
                                  de sangrar a ferida.
                                  Nada rende,
                                  não há remendo,
                                  nem consolo,
                                  nem saída;
                                  luta perdida.
                                  A lágrima não significa,
                                  o amor cruza os braços,
                                  a saudade diz que vai,
                                  e fica.   
     
    
                                  IVONE BOECHAT

sexta-feira, 30 de março de 2012

adeus em preto e branco


                              ultrapassei teus limites
                              renegaste os meus
                              nem por isso estamos quites
 
 
                              RAUL POUGH

quarta-feira, 28 de março de 2012

massa de ar quente


calor nos meus lábios,
não era o teu beijo...
era o vento do pastel
 
 
RAUL POUGH

assombros


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
 
 
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

terça-feira, 27 de março de 2012

presente


Quando nasce uma estrela
o coração nos diz
que as luzes virão, sempre

Quando nasce a saudade
a voz que fala é a do vazio que se instala
feito trilhos e dormentes à espera do trem

e na estação deserta
olhando estrelas que vêm e vão
está o homem, debruçado em sua solidão

não haverá trens
não haverá ninguém ou nada
apito, fumaça ou gentes

só o céu inatingível
se a saudade, feito estrela arrivista,
umedecer de brilhos sua vista

Saudade e estrela são sonhos cadentes
que deixam rastros parecidos
reluzentes e fugidios

só que uma se repete
enquanto a outra evanesce
A outra é a estrela ...

Quando nasce o Amor
dizemos ao coração
que a luz será perene

a luz que brilhará
nas trevas do caminho
e que trará o mundo às nossas mãos

mesmo que na saudade do que foi
na saudade do que é
na saudade do que será

na saudade ...

Em sua totalidade celeste
no espaço que veste a vontade
de nascer e morrer de paixão

o homem poderá estar sozinho
mas se houver uma única estrela
no éter, o poeta, não!
 
 
MAURO VERAS

sábado, 24 de março de 2012

chupetas punhetas guitarras


Choram meus filhos pela casa
fraldas colos fanfarras
Meus filhos choram querendo talvez meu peito
ou talvez o mesmo único leito que reservei pra mim
Assim aprendi a doar
com o pranto deles
Na marra aprendi a dar mundo a quem do mundo é
A quem ao mundo pertence e de quem sou mera babá
Um dia serei irremediavelmente defasada, demodê
Meus filhos berram meu nome função
querendo pão, ternura, verdade e ainda possibilidade de ilusão
Meus filhos cometem travessuras sábias
no tapa bumerangue da malcriação
Eu que por eles explodi buceta afora afeto adentro
ingiro sozinha o ouro excremento desta generosidade
Aprendo que não valho nada em mim
Que criar pessoa é criar futuro
não há portanto recompensa, indenização
mesquinhas voltas, efêmeros trocos.
Choram pela casa e eu ouço sem ouvidos
porque meus sentidos vivem agora sob a égide da alma
   
Chupetas punhetas guitarras
meus filhos babam conhecimentos da nova era
no chão de minha casa.
Essa deve ser minha felicidade.
Aprendo a dar meu eu, aquilo que não tem cópia
tampouco similar
E o tempo, esse cuidadoso alfaiate, não me conta nada
Assíduo guardador dos nossos melhores segredos
sabe o enredo da estória
Vai soprando tudo aos poucos e muito aos pouquinhos
Faz eu lembrar que meu pai também já foi pequenininho
Que só por ele ter podido ser meu ontem
Só por ele ter fodido com desesperado desejo minha mãe
um dia eu existi.
   
Choram meus filhos pela Nasa onde passeamos planetas e reveses
Eu escuto seus computadores, eu limpo suas fezes
faço compressas pra febre, afirmo que quero morrer antes deles
assino um documento onde aceito de bom grado
lhes ter sido a mala o malote a estrela guia
Um dia eles amarão com a mesma grandeza que eu
uma pessoa que não pode ser eu
Serão seus filhos suas mulheres seus homens
Eu serei aquela que receberá sua escassa visita
Não serei a preferida.
   
Serei a quem se agradece displicente
pelo adianto, pela carona
de poderem ter sido humanidade.
Choram meus filhos pela casa
Eu sou a recessiva bússola
a cegonha a garça
com um único presente na mão:
Saber que o amor só é amor quando é troca
E a troca só tem graça quando é de graça.
 
 
ELISA LUCINDA

segunda-feira, 5 de março de 2012

ficar velho?


Ficar velho é
deixar enguiçar
o sonho, o propósito, a capacidade de criar.
Ficar velho é
deixar morrer o pensamento novo
que não para de gritar.
Ficar velho é
correr em sentido contrário
das belezas da vida,
sustentar doendo aquela antiga ferida.
Ficar velho é
entregar os pontos, desistir, calar.
Ficar velho é,
não querer enxergar oportunidades,
tapar o sol com a peneira,
ao invés de recriar o tempo,
seguir em frente,
lutar.

   
  
IVONE BOECHAT

domingo, 4 de março de 2012

renúncia


Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
Toda a expressão do humano sofrimento
A gente esquece assim como se fosse
Um vôo de andorinha em céu nevoento.

       
Anoiteceu de súbito. Acabou-se
Tudo… A miragem do deslumbramento…
Se a vida que rolou no esquecimento
Era doce, a saudade inda é mais doce.
       
Sofre de ânimo forte, alma intranquila!
Resume na lembrança de um momento
Teu amor. Olha a noite: ele cintila.
     
Que o grande amor, quando a renúncia o invade,
Fica mais puro porque é pensamento,
Fica muito maior porque é saudade.
     
       
CARNEIRO DA CUNHA